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Tráfico de animais silvestres expõe desafios do sistema jurídico brasileiro

Centro de Triagem e Recuperação de Animais Silvestres de São Paulo (Cetras-SP)

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A recente aprovação do PL dos Silvestres na Câmara e as leis de Proteção à Fauna e de Crimes Ambientais não são suficientes para proteção animal, segundo especialistas

Vendidos em feiras clandestinas ou em plataformas digitais, os animais silvestres movimentam um mercado ilegal frequentemente subestimado no Brasil.

O País é responsável pelo tráfico de 38 milhões de animais silvestres por ano, segundo dados da Organização Social de Interesse Público (Oscip) e da Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas).

De acordo com a Comissão Europeia, o tráfico de animais é o quarto negócio ilegal mais lucrativo do mundo, atrás apenas do tráfico de drogas, de seres humanos e do comércio de armas. “Infelizmente somente 10% dos animais capturados pelos criminosos chegam vivos aos destinos. É uma carnificina”, disse Fred Costa, relator da proposta durante votação. Estima-se que o lucro anual da atividade gire em torno de 8 bilhões a 20 bilhões de euros.

Em São Paulo, 9.487 animais silvestres foram recebidos pelo Centro de Triagem e Recuperação de Animais Silvestres (Cetras-SP) somente em 2025. Desse total, 5.046 passaram por processos de reabilitação.

‘Legislação precisa ser melhorada’

Em novembro de 2025, foi aprovado o Projeto de Lei 347/03, conhecido como PL dos Silvestres. O texto aumenta a pena pelo crime ambiental de matar, caçar ou apanhar animais silvestres sem autorização, ou licença.  

No Brasil, existem duas principais leis federais que tratam do tráfico de animais silvestres.

  • Lei de Proteção à Fauna, que proíbe caçar, capturar, comercializar ou manter em cativeiro qualquer animal da fauna silvestre sem autorização do Estado. 
  • Lei de Crimes Ambientais, que estabelece penas para crimes contra a fauna, incluindo a caça e a captura de animais na natureza.

Apesar de existir proteção legal, a aplicação efetiva da legislação encontra, na prática, obstáculos. Especialistas defendem o fortalecimento da legislação e a adoção de medidas mais rigorosas no país para a proteção da fauna.

“Um país tão grande como o Brasil sofre muitas vezes com a falta de agentes em número e qualificação ética suficiente para punição. Isso prejudica ainda mais com que o tráfico seja realmente combatido de forma eficiente”, avalia Vânia Nunes, médica veterinária pela UNESP e diretora técnica do Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal. 

O advogado e doutorando em Direito Animal na Universidade Federal do Paraná (UFPR), Yuri Fernandes, defende que a gravidade do problema é também impactada diretamente pela existência de uma “legislação ruim e que precisa ser melhorada”.

“É uma situação muito complexa de se resolver. Acredito que poderíamos começar tendo uma legislação mais firme. Não são suficientes”, ressalta o advogado. 

Principais vítimas do tráfico

As principais espécies vítimas do tráfico de animais silvestres no Brasil estão distribuídas por diversas regiões do país e incluem, sobretudo, aves, mamíferos e répteis. 

Espécies mais afetadas pelo tráfico de animais silvestres no Brasil: 

Pássaros

  • Coleirinha
  • Picharro
  • Canário-da-terra-verdadeiro
  • Galo-da-campina
  • Pássaro-preto
  • Azulão
  • Tico-tico
  • Papagaio-verdadeiro
  • Sabiá-laranjeira
  • Canário-da-terra
  • Papa-capim
  • Araras 
  • Pixoxó

Répteis

  • Jabuti-piranga
  • Tigre-d’água

Mamíferos

  • Gambá-de-orelha-preta
  • Macaco-prego
  • Sagui
Macacos-prego retirados de criadouro embargado em Xanxerê (SC) - Foto: Divulgação/Ibama
Filhotes de macaco-prego retirados de criadouro embargado em Xanxerê (SC) – Foto: Divulgação/Ibama

Tráfico especializado 

Considerando que apenas uma parcela dos animais capturados pelos traficantes consegue chegar viva ao destino, os sobreviventes são submetidos a práticas extremas de crueldade ao longo de todo o trajeto.

De maneira geral, 100% dos animais envolvidos no comércio ilegal são vítimas de maus-tratos, segundo a bióloga do Cetras-SP, Lilian Sayuri Fitorra.

“Existem casos em que mais de 50 aves são colocadas em uma única caixa pequena, expostas a temperaturas muito elevadas, sem acesso à comida ou água”, aponta Lilian.

Na tentativa de reduzir as perdas durante o transporte ilegal, traficantes vêm aprimorando métodos e técnicas para aumentar o lucro. “Animal morto é um dinheiro perdido para eles, que não têm sensibilidade nenhuma”, explica a bióloga do Cetras-SP. 

Para o Ibama, a principal mudança no modus operandi das quadrilhas tem sido o aumento do uso de plataformas digitais, incluindo redes sociais, para se estabelecer o contato entre o traficante e o comprador. 

“Antes, o comprador procurava o traficante principalmente em feiras livres. Embora elas ainda existam, agora é muito mais comum que a comunicação seja feita de forma virtual”, relata o Instituto. 

Jabutis estavam sendo exportados por criadouro da Bahia para China - Foto: Ibama/SP
Jabutis estavam sendo exportados por criadouro da Bahia para China – Foto: Ibama/SP

Desequilíbrio ambiental

A retirada da fauna silvestre do ambiente natural acarreta efeitos ambientais direto. As consequências mais abrangentes envolvem o desequilíbrio ecológico. “Os animais presas da espécie traficada podem sofrer um crescimento desenfreado pela falta de predadores, o que, então, pode levar a outras consequências. É o que se chama na ecologia de ‘efeito cascata”, apontou o Instituto. 

Outro problema da retirada expressiva de espécies do habitat natural é a contribuição para o fenômeno conhecido como “síndrome da floresta vazia”.

“A percepção de uma área verde sem fauna pode passar a sensação de que é uma floresta saudável devido à vegetação, porém está funcionalmente morta”, explica o Ibama. “A perda de espécies-chave afeta a dinâmica de todo o ecossistema, prejudicando também a dispersão de sementes e a polinização”, acrescenta.  

Uma ação conjunta entre Estado e Prefeitura de São Paulo, Polícia Rodoviária Federal e governo de Pernambuco está devolvendo mais de 130 jabutis-piranga (Chelonoidis carbonaria) ao seu habitat natural. - Centro de Triagem e Recuperação de Animais Silvestres de São Paulo (Cetras-SP)
Mais de 130 jabutis-piranga sendo devolvidos ao seu habitat natural – Foto: Cetras-SP

Como denunciar ou solicitar o resgate de um animal em perigo? 

Há diversos canais disponíveis para denunciar o comércio e o tráfico ilegal de animais silvestres, bem como para solicitar o resgate de animais em situação de risco. Também é possível acionar as autoridades para levar um animal silvestre resgatado, desde que não represente perigo para quem o recolhe, ou realizar a entrega voluntária e espontânea de um animal mantido de forma irregular. 

A seguir, estão listados os principais canais para esse tipo de denúncia e atendimento:

Serviço

Polícia Militar Ambiental, consulte: https://www.policiamilitar.sp.gov.br

Contate a unidade do Policiamento Ambiental mais próxima: https://www.policiamilitar.sp.gov.br/unidades/ambiental/localize.html

Em casos de emergência ligue: 190

IBAMA, atendimento telefônico: 0800 061 8080

Na cidade de São Paulo, Prefeitura: 156

Centro de Triagem e Recuperação de Animais Silvestres São Paulo (Cetras-SP): 2823-2272

 

 

Fonte: Jovem Pan

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