Amazonas
Trabalho infantil em Manaus atinge 50,8% dos adolescentes
Pesquisa também mostra que 24,5% dos jovens entrevistados lidam com o transporte de cargas; número pode ser ainda maio
O trabalho infantil segue presente em Manaus e está associado a diferentes formas de violência e vulnerabilidade social, como abuso sexual, violência doméstica, exploração sexual, insegurança alimentar e prejuízos à vida escolar. É o que revela uma pesquisa da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), realizada com 453 estudantes de 24 escolas públicas estaduais da capital.
Resultado deste estudo, o relatório “Experiência Adversa na Adolescência: um inquérito de base escolar sobre a ocorrência do trabalho infantil em Manaus, Amazonas” traz dados que chamam atenção. Segundo a pesquisa, 50,8% dos adolescentes afirmaram já ter ajudado em negócios da família, 24,5% relataram ter carregado cargas pesadas, como sacos de cimento, tijolos e móveis, e 22,1% disseram já ter trabalhado em obras da construção civil.
O levantamento também identificou situações consideradas entre as piores formas de trabalho infantil: 1,1% dos estudantes admitiram envolvimento com o tráfico de drogas, 2% afirmaram ter recebido algo em troca de favores sexuais e 0,7% relataram participação em produções pornográficas.
Escassez de informações
De acordo com a coordenadora da pesquisa e líder do Grupo de Estudos e Pesquisas em Saúde e Violência da UEA (GEPSV/UEA), a pesquisadora Nathália França, o estudo nasceu da necessidade de compreender um fenômeno ainda pouco dimensionado no Amazonas. Segundo ela, a escassez de informações locais e a subnotificação dos casos dificultam a formulação de políticas públicas capazes de enfrentar o problema.
De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), o trabalho infantil compreende atividades que privam crianças e adolescentes da infância, da dignidade e do pleno desenvolvimento, comprometendo a saúde, a educação e o bem-estar. No Amazonas, a estimativa é de cerca de 49 mil crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil, embora a subnotificação ainda dificulte dimensionar a real extensão do problema.
Trabalho infantil associado a outras violências
O estudo revela que o trabalho infantil raramente aparece de forma isolada. Entre os adolescentes que trabalham, 24,3% relataram sofrer abuso emocional, 19,4% afirmaram ter sido vítimas de abuso sexual e 18,3% disseram sofrer abuso físico. Além disso, 32% convivem com violência comunitária e 27,4% relataram sofrer bullying.
Para Nathália, um dos aspectos mais preocupantes identificados pela equipe foi a naturalização do trabalho precoce entre os próprios adolescentes. De acordo com a pesquisadora, muitos jovens enxergam a jornada de trabalho não como uma violação de direitos, mas como uma obrigação familiar ou até mesmo como uma oportunidade de amadurecimento.
Dependência do Bolsa Família
A pesquisa mostra que a vulnerabilidade econômica está no centro desse cenário. Quase metade das famílias dos estudantes entrevistados (46,4%) depende do Bolsa Família, enquanto 14,3% dos principais responsáveis pelo sustento estão desempregados. Nos relatos coletados pelos pesquisadores, muitos adolescentes associaram diretamente o trabalho à necessidade de ajudar a pagar contas ou garantir alimentação dentro de casa.
Os impactos também chegam à educação. Entre os estudantes entrevistados, 14,3% já repetiram de ano, e o trabalho aparece entre os fatores apontados para a reprovação. Os pesquisadores identificaram ainda adolescentes que realizam trabalho fora ou tarefas domésticas durante o horário em que deveriam estar frequentando a escola.
Outro dado que chamou a atenção dos pesquisadores foi a elevada carga de trabalho doméstico. Cerca de 68,2% dos adolescentes afirmaram ajudar no cuidado de crianças, enquanto 68,4% relataram realizar atividades domésticas regularmente. Para os autores do estudo, embora muitas dessas tarefas sejam vistas como simples colaboração familiar, elas podem configurar situações de exploração quando passam a comprometer o tempo destinado ao lazer, à convivência social e aos estudos.
Problema pode ser muito maior
Segundo Nathália, a dimensão do problema pode ser ser ainda maior do que a revelada pelo levantamento. Isso porque o estudo foi realizado apenas com adolescentes matriculados e frequentando a escola, deixando de fora justamente aqueles que podem ter abandonado os estudos em decorrência do trabalho infantil.
Diante dos dados encontrados, a coordenadora defende uma atuação integrada entre diferentes setores para combater o problema. Segundo ela, não basta apenas fiscalizar; é necessário fortalecer políticas públicas que garantam proteção social às famílias e a permanência dos adolescentes na escola.
É muito provável que exista subnotificação e que os números sejam ainda maiores. O trabalho infantil é frequentemente naturalizado e, muitas vezes, os próprios adolescentes não reconhecem determinadas atividades como trabalho infantil. Além disso, nossa pesquisa foi realizada com adolescentes que estavam frequentando a escola. Aqueles que já abandonaram os estudos, possivelmente em decorrência do próprio trabalho infantil, não foram captados.
Foto: (Divulgação)
Fonte: Acrítica
