Entre as causas citadas por Giuseppe Loprete, chefe da Missão da Organização Internacional para as Migrações (OIM) no Panamá, estão o impacto socioeconômico da pandemia e as tensões nas cadeias de suprimentos globais, causadas pela guerra na Ucrânia.
— Um número crescente vem realizando travessias perigosas a pé, inclusive através do Tampão de Darién, no Panamá, passando pela América Central e México para chegar aos EUA em busca de melhores oportunidades — afirmou ao GLOBO. — Não podemos descartar que o forte uso das redes sociais para compartilhar vídeos de migrantes que atravessam a selva também influencie a decisão de seguir essa perigosa rota.
Publicado esta semana, um relatório da ONU mostra que cerca de 4,3 milhões de refugiados e migrantes da Venezuela têm dificuldades de acesso a alimentação, moradia e emprego formal nos países onde vivem atualmente. Para comprar comida ou evitar viver nas ruas, muitos são obrigados a recorrer ao trabalho sexual, pedir esmolas e se endividar.
No Equador, por exemplo, segundo o documento, 86% dos migrantes venezuelanos dizem não ter renda suficiente para suprir suas necessidades básicas, enquanto no Chile 13% deles vivem abaixo da linha da pobreza.
— Da Venezuela, vim para a Colômbia, trabalhei e trabalhei — disse ao New York Times Félix Garvett, de 40 anos, esperando sob uma tenda em uma praia de uma cidade litorânea colombiana antes de começar sua jornada, no mês passado. — Preciso de um futuro para meus filhos.
A Colômbia, onde começa a travessia, é o país que mais recebe migrantes venezuelanos — dois milhões —, já que ambos os países compartilham uma fronteira terrestre extensa e porosa de mais de 2.219 km. Fechada desde 2019, a divisa acaba de ser reaberta, uma das promessas do novo presidente colombiano, Gustavo Petro, o primeiro de esquerda a governar o país.
Rota mais perigosa do mundo
O Tampão de Darién, região que marca a fronteira entre a Colômbia e o Panamá, é uma das rotas escolhidas pelos migrantes em direção ao Norte do continente. E uma das mais perigosas do mundo. São 5 mil km² de matas tropicais, montanhas íngremes e rios. O trajeto começa na rodovia Panamericana, que liga a maioria dos países do continente americano. Mas, nesse trecho específico, onde a rodovia é interrompida, não há estradas pavimentadas nem caminhos sinalizados.
O Tampão de Darién, região que marca a fronteira entre a Colômbia e o Panamá, é uma das rotas escolhidas pelos migrantes em direção ao Norte do continente. E uma das mais perigosas do mundo. São 5 mil km² de matas tropicais, montanhas íngremes e rios. O trajeto começa na rodovia Panamericana, que liga a maioria dos países do continente americano. Mas, nesse trecho específico, onde a rodovia é interrompida, não há estradas pavimentadas nem caminhos sinalizados.
Tampão de Darién fica entre o Panamá e a Colômbia, rota de muitos imigrantes que tentam chegar à América do Norte — Foto: Arte O Globo
Em média, os migrantes levam de quatro a seis dias para cruzar a pé a floresta pouco sinalizada, que separa o povoado de Acandí, na Colômbia, e Bajo Chiquito, no sul do Panamá. Contudo, alguns chegam a levar dez dias na trilha.
Sob o clima extremamente úmido da floresta, há rios nada tranquilos e extensos pântanos — muitos dos imigrantes são levados pelas águas ou acabam se contaminando. Para piorar, correm o risco de serem atacados por gangues, que roubam e violentam as mulheres. Segundo Helmer Charris, que atuou com Médicos Sem Fronteiras (MSF) no Panamá até março, 396 mulheres foram atendidas por violência sexual de abril de 2021 a março de 2022, 68 delas apenas de janeiro a março deste ano.
— Estamos particularmente preocupados com a situação das mulheres abusadas sexualmente e que são incapazes de obter a profilaxia e o tratamento médico e psicológico de que precisam com rapidez suficiente — disse Charris, acrescentando: — As venezuelanas também se queixam de maus-tratos brutais, infligidos com a intenção de humilhar, quase como em busca de vingança. [Tudo] isso obviamente afeta sua saúde física e mental e causa sofrimento psicológico significativo.
Olga Ramos, uma enfermeira venezuelana (esquerda), e sua família se arriscam na travessia do Tampão do Darién — Foto: FEDERICO RIOS/AFP
Segundo autoridades colombianas, mais de mil migrantes chegam diariamente ao Terminal de Transportes do Norte de Medellín, no Departamento de Antioquia — antes o fluxo era de menos de 200 por dia. De lá, seguem para a cidade fronteiriça de Acandí , onde começa a travessia. Na semana passada, o ministro da Segurança panamenho, Juan Pino, confirmou que aproximadamente 2.500 pessoas chegam diariamente na fronteira, a maioria venezuelanos.
Refugiados e migrantes de várias nacionalidades cruzam a região há décadas, mas o número disparou nos dois últimos anos. De 2010 a 2020, a média anual de travessias era de até 11 mil pessoas, segundo autoridades panamenhas. Na época, a maioria dos que se arriscavam eram cubanos.
Agora, perante o crescente número de pessoas cruzando o Tampão de Darién, a OIM, o Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur) e parceiros locais estão aumentando a resposta no Panamá, fornecendo abrigos temporários em centros de recepção do governo, bem como colchões, cobertores, lâmpadas.
— É necessário e urgente fortalecer a cooperação regional com todos os países afetados por esses fluxos migratórios, tanto os países de origem quanto os de trânsito e destino — afirma o chefe da missão da OIM no Panamá.
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Doenças e estresse pós-traumático
A maioria dos atendidos pela MSF no país este ano chegava com doenças de pele e dores no corpo, infecções respiratórias e doenças do sistema digestivo. Também era comum encontrar pessoas com estresse pós-traumático, sintomas de ansiedade ou em situação de luto pela perda de um familiar na selva.
Há ainda o risco de os migrantes serem passado para trás pelos coiotes, que os conduzem em círculos na mata pouco sinalizada. O médico relata que alguns foram levados através da notória Loma de la Muerte, que é famosa pelas difíceis condições. Como a rota é mais longa, os guias também cobram mais. O custo triplicou: passou de US$ 300 (cerca de R$ 1.50) por pessoa para US$ 900 (cerca de R$ 4.570).
O número de mortos, por sua vez, é incerto, mas, segundo a OIM, pelo menos 30 pessoas perderam a vida no trajeto este ano. Destas, nove eram crianças — ao longo de 2022, 14.500 meninos e meninas cruzaram a rota.
— São famílias que deixam tudo para trás por desespero, em busca de uma vida melhor em outro lugar — contou Loprete. — Há poucas semanas, uma mulher chegou ao fim da trilha e não conseguiu encontrar o marido. Esses casos são frequentes, e muitas crianças chegam sem os pais também. Estamos testemunhando um número crescente dessas situações. Nossa prioridade ajudá-los o mais rapidamente possível.
Mas, apesar da dureza da jornada e dos riscos da travessia, a OIM no Panamá estima que até o final deste ano, pelo menos 200 mil pessoas, entre bebês e grávidas, terão atravessado a fronteira da selva entre Colômbia e Panamá. De lá, ainda terão de seguir até a fronteira com a Costa Rica, e, em seguida, passar por Nicarágua, Honduras, Guatemala, México até chegar aos Estados Unidos, em uma viagem que pode durar mais de dois meses.
— Se eu tiver que vir mil vezes, virei mil vezes — disse ao New York Times a enfermeira venezuelana Olga Ramos, em um acampamento a vários dias de distância do fim da trilha, no meio da selva, ao lado de toda a família.
*g1 Com New York Times