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Ação cai ao menor valor histórico, crise de governança e dívida pressionam a operadora e elevam temor sobre seus clientes em todo o país. Leia a reportagem especial
O pregão da última sexta-feira, 16 de janeiro, entrou para a história do mercado financeiro brasileiro como o dia em que o “milagre” da Hapvida (HAPV3) desmoronou oficialmente. O BNC abre a caixa preta da crise.
Ao fechar cotada a R$ 12,99 — seu menor valor de fechamento histórico —, a ação da maior operadora de saúde da América Latina confirmou o veredito dos investidores: o modelo de negócio da companhia é insustentável.
Depois de derreter quase 60% em 2025, o papel já acumula uma queda superior a 10% somente nestes primeiros dias de 2026.
O mercado, que antes aplaudia a “eficiência de custos” da empresa, agora foge de um ativo tóxico, contaminado por uma gestão errática, dívidas bilionárias roladas a juros altos e uma estratégia comercial de guerra que sacrifica pacientes para inflar números que não se sustentam.
Esta reportagem especial do BNC abre a caixa-preta da crise para mostrar o que os relatórios oficiais tentam esconder.
1. A “Dança das Cadeiras”, o Fantoche e o Esquema dos Aluguéis
A tentativa da Hapvida de estancar a sangria anunciando uma troca de comando soou para os investidores institucionais como um grito de desespero, não como uma solução.
A saída de Jorge Pinheiro, filho do fundador Cândido Pinheiro, do cargo de CEO para a presidência do conselho, e a nomeação de Luccas Adib (ex-CFO) para o seu lugar, foi lida na Faria Lima como uma mudança cosmética.
Nos bastidores, a pergunta que circula nas mesas de operação é cruel, mas necessária: Luccas Adib terá autonomia real ou será apenas um fantoche nas mãos da família Pinheiro para assinar os cortes de custos impopulares que virão?
O mercado também questiona se o novo executivo herdará os super-salários da dinastia. Em exercícios anteriores, Jorge Pinheiro figurou entre os executivos mais bem pagos do Brasil, com uma remuneração anual que chegou a atingir a cifra pornográfica de R$ 67 milhões.
O contraste é chocante: enquanto o herdeiro embolsava milhões, a empresa negava terapias básicas para crianças autistas e pacientes com câncer.
O Conflito de Interesses: A Família Lucra Enquanto a Empresa Sangra
Mas o buraco é mais embaixo. A investigação aponta um conflito de interesses escandaloso que drena o caixa da empresa diretamente para o bolso dos controladores.
A Hapvida vendeu hospitais e imóveis estratégicos para a LPAR Imóveis, uma empresa que pertence à própria família Pinheiro. Em seguida, a operadora alugou esses mesmos prédios de volta.
O problema? Analistas apontam que os valores desses aluguéis estariam muito acima dos preços de mercado, com taxas de retorno (cap rate) garantidas e indexadas à inflação, blindando o patrimônio da família contra qualquer crise.
Ou seja: mesmo que a Hapvida dê prejuízo, perca clientes e suas ações virem pó, a família Pinheiro continua recebendo aluguéis milionários religiosamente, pagos com o dinheiro dos beneficiários.
Esse é um mecanismo de extração de riqueza que prioriza o clã fundador em detrimento da saúde financeira da companhia e do atendimento aos pacientes.
A desorientação na governança ficou ainda mais evidente com o episódio bizarro envolvendo Alain Benvenuti. O executivo, que havia renunciado e pedido para sair da companhia em dezembro, reapareceu semanas depois, em janeiro de 2026, como o “salvador” da Vice-Presidência Comercial.
Essa volta repentina de quem já tinha desistido do barco expõe a falta de quadros qualificados dispostos a assumir a bronca e a total improvisação no alto comando.
2. A “pedalada” das Debêntures: R$ 3,6 Bilhões para Cobrir o Rombo
Se a governança assusta, o caixa apavora. Em outubro de 2025, a Hapvida foi ao mercado captar R$ 3,6 bilhões em debêntures. A narrativa oficial era de “reforço de caixa”, mas analistas sêniores não perdoaram: o dinheiro novo serviu, na prática, para rolar dívidas antigas que estavam vencendo.
O mercado financeiro, que vive de antecipar tendências, percebeu o movimento. A empresa está tomando dinheiro caro para pagar dívidas passadas, enquanto sua operação gera cada vez menos caixa livre. É uma corrida contra o tempo onde a linha de chegada é a insolvência ou uma diluição massiva dos acionistas.
3. A coincidência macabra dos R$ 67 Milhões
Existe uma simetria perversa nos números da Hapvida que ilustra sua crise moral. O mesmo valor de R$ 67 milhões que já serviu para remunerar a alta cúpula em tempos de bonança é, coincidentemente, a cifra que a Justiça precisou bloquear das contas da empresa para garantir o direito à vida de seus clientes.
A judicialização deixou de ser um risco e virou rotina. A Hapvida institucionalizou a prática de não cumprir nem mesmo liminares judiciais.
• O “Não” como Estratégia: Casos de pacientes em UTIs, crianças precisando de terapias multidisciplinares e idosos com câncer têm seus tratamentos negados administrativamente. Quando recorrem à Justiça e ganham, a empresa ignora a ordem do juiz, preferindo pagar multas a custear o tratamento.
• Lucro pelo Cansaço: A aposta é que o paciente desista ou morra antes que a empresa seja forçada a pagar. Em casos extremos no Amazonas e Nordeste, juízes tiveram que sequestrar o dinheiro diretamente no caixa da operadora para que hospitais terceirizados aceitassem receber o paciente, já que a fama de “má pagadora” da Hapvida corre o mercado.
4. Estratégia Suicida: Preço de Banana, Serviço de Pesadelo
Diante da perda projetada de 60 mil clientes no último trimestre , consequência direta da péssima qualidade percebida, a Hapvida entrou em uma espiral comercial suicida.
Para tentar maquiar os números de perda de vidas (churn) e mostrar “crescimento” aos acionistas, a empresa partiu para o dumping (venda abaixo do custo).
No Norte do Brasil, onde o custo médico é historicamente mais alto devido à logística, a Hapvida está oferecendo planos empresariais a preços irrisórios, chegando a R$ 160,00 por vida em contratos corporativos.
Essa guerra de preços contra a concorrência (especialmente a Amil, que vem recuperando terreno) tem um efeito colateral devastador:
1. Colapso da Rede: Com uma receita por usuário tão baixa, a conta não fecha. A única forma de manter a margem é negar ainda mais atendimentos.
2. Superlotação: A venda desenfreada de planos baratos lota as unidades próprias, criando filas de espera de meses para consultas simples e o caos nas emergências.
3. Dependência de Contratos Públicos: A empresa se tornou refém de grandes contratos com prefeituras e estados, muitas vezes mantidos através de batalhas jurídicas e liminares questionáveis para segurar a receita garantida, já que o cliente privado está fugindo.
Alerta
Equipe do BNC já está em posse de documentos que detalham essa prática de preços artificiais. Na próxima reportagem desta série, o site vai expor as propostas com preços vis praticados pela Hapvida, revelando como essa estratégia predatória destrói o mercado e coloca em risco a continuidade do atendimento de milhares de vidas.
Veredito: ladeira abaixo
A Hapvida que começa 2026 é uma sombra do que prometeu ser. O que era para ser um case de “eficiência” tornou-se um estudo de caso sobre como a ganância financeira pode destruir uma operação de saúde.
Ao trocar a medicina pela engenharia financeira, priorizar os aluguéis da família controladora e institucionalizar a litigância de má-fé contra pacientes, a companhia entrou em um ciclo autodestrutivo.
O preço de tela de R$ 12,99 não é um desconto; é um aviso. Para o mercado, a empresa vale cada vez menos. Para os pacientes, o valor pago pode custar a própria vida.
Fonte: BNC Amazonas
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