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Amazonas

Rodovia na floresta: isolamento, atoleiros e os desafios de quem ainda depende da BR-319

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Série da Rede Amazônica mostra como o abandono da BR-319 impactou moradores, motoristas e cidades que dependem da única ligação terrestre entre o Amazonas e o restante do país.

Comunidades isoladas, viagens marcadas por lama e atoleiros e dificuldades que atravessam gerações. A série “Rodovia na Floresta: Ecos da BR-319” mostra como o abandono da BR-319 impactou moradores, motoristas e cidades que dependem da única ligação terrestre entre o Amazonas e o restante do país.

A reportagem percorre trechos da rodovia entre o Amazonas e Rondônia para mostrar como os problemas da BR atravessaram décadas e ainda afetam diretamente a vida de quem vive às margens da estrada. Dos impactos causados pelo fechamento da via, no fim dos anos 1980, ao drama enfrentado durante a crise do oxigênio em Manaus, em 2021, moradores relatam as dificuldades de viver em uma estrada marcada pelo isolamento.

No segundo episódio, a produção também mostra os desafios enfrentados atualmente por caminhoneiros e motoristas que precisam encarar longas horas de viagem em uma estrada de barro, cheia de buracos e trechos críticos. Assista acima.

Comunidades isoladas após o fechamento da estrada
Moradora da comunidade Igapó-Açu, em Manicoré, Nilda Castro dos Santos vive há quase cinco décadas às margens da BR-319. Ela acompanhou o período de maior movimento da estrada e também o abandono da rodovia após o fechamento, em 1988.

Segundo Nilda, o impacto foi imediato. Das 95 famílias que viviam na comunidade, apenas cinco permaneceram no local.

“Não tinha mais como ir e nem como vir”, relembra.
Com a estrada sem condições de tráfego, o deslocamento passou a depender dos rios. O acesso a alimentos, atendimento médico e outros serviços básicos ficou mais difícil e demorado.

O presidente da Associação dos Amigos da BR-319, André Marsílio, afirma que muitas famílias viveram anos de isolamento. “Muitas dessas mulheres tiveram seus filhos em casa, contou.

A estrada dos atoleiros

Os impactos também atingiram o Careiro, município localizado no quilômetro 102 da BR-319 e considerado a única cidade construída às margens da rodovia.

O comerciante Antônio Graças relembra que, durante anos, moradores precisaram recorrer aos barcos para conseguir mercadorias e se deslocar até Manaus.

Na década de 1990, veículos voltaram a circular pela estrada, mas a BR-319 já estava deteriorada. Sem manutenção adequada, a rodovia ganhou fama pelos atoleiros que dificultavam a passagem de carros, ônibus e caminhões, principalmente no período chuvoso.

Crise do oxigênio expôs problemas da rodovia

Em 2021, durante o colapso da saúde pública provocado pela pandemia de Covid-19 no Amazonas, os problemas estruturais da BR-319 voltaram a ganhar destaque.

Com a falta de oxigênio em hospitais de Manaus, carregamentos enviados pela estrada enfrentaram dificuldades para chegar à capital por causa das condições da pista.

“Os aviões não comportavam, e pela estrada demorava cinco dias para chegar”, relembra Antônio Graças.
 

No ano seguinte, em 2022, duas pontes desabaram na BR-319. O acidente deixou 14 pessoas feridas e cinco mortas.

Isolamento, atoleiros e os desafios de quem ainda depende da BR-319 — Foto: Reprodução/Rede Amazônica

Isolamento, atoleiros e os desafios de quem ainda depende da BR-319 — Foto: Reprodução/Rede Amazônica

Viagem longa e cheia de obstáculos

Atualmente, é possível encontrar máquinas realizando serviços de manutenção em diferentes trechos da rodovia. Apesar disso, grande parte da viagem ainda acontece em estrada de barro.

Entre a comunidade do Igapó-Açu e o distrito de Realidade, em Humaitá, a equipe da Rede Amazônica levou mais de seis horas de viagem. Ainda faltavam cerca de 150 quilômetros até a divisa entre Amazonas e Rondônia.

Pelo caminho, a reportagem encontrou lama, buracos e caminhões atolados.

O caminhoneiro Keginaldo da Silva ficou preso após tentar desviar de outro veículo em um trecho da estrada. “Agora é esperar o socorro”, disse.

 

Décadas depois de ser chamada de “rodovia do progresso”, a BR-319 ainda funciona com dificuldades e longe das características esperadas de uma rodovia federal.

 
 
 
Fonte:g1