Brasil
Teatro macabro: suspeito de morte de Jeff Machado se passou pelo ator, inventou personagens e enganou a família
Bruno de Souza Rodrigues, preso na manhã desta quinta-feira, é o principal suspeito de assassinar o ator Jeff Machado que, no dia 23 de janeiro, foi estrangulado com um fio telefônico em seu quarto. Segundo a polícia, o produtor de TV, junto com o garoto de programa Jeander Vinícius da Silva Braga — preso temporariamente desde 2 de junho —, matou o artista, amarrou pés e mãos com fita adesiva e o colocou em posição fetal em um dos baús usados na decoração da própria casa da vítima.
De acordo com as investigações, Bruno planejava o crime desde dezembro. Para colocá-lo em prática, o produtor protagonizou um “teatro” com amigos e conhecidos de Jeff: além de propostas falsas de emprego, inventou personagens, se passou pelo ator e ainda criou uma farsa para a família da vítima.
Propostas falsas de emprego
A esteticista Cintia Hilsendeger, amiga de infância do ator Jefferson Machado da Costa, revelou em entrevista ao GLOBO que o artista pagou cerca de R$ 20 mil para ter oportunidade de atuar em uma novela na televisão. O pagamento foi feito ao Bruno. Segundo a amiga, ele se aproximou de Jeff dizendo ser assistente de produção.
— O suspeito explicou que Jeff teria que dar R$ 20 mil para ter acesso a um papel na novela e não ficar só no elenco de apoio. Acontece que toda hora uma novela nova ia ao ar e nada de o Jeff ser chamado — contou Cintia.
Segundo a esteticista, Bruno inventava desculpas quando questionado sobre a demora para Jefferson conseguir um papel. Ele, inclusive, sugeria mudanças físicas.
— Ele falava que o Jeff tinha que emagrecer ou engordar. Toda vez ele pedia para o Jeff ter paciência, que o momento dele ia chegar. Falava para ele ficar calmo que tudo ia dar certo, que na próxima novela ele conseguiria. Eu falava para ele não acreditar nele — relatou a amiga.
Veja imagens do ator Jeff Machado
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Mãe de Jeff, Maria das Dores, de 73 anos, diz que o filho avisou que daria R$ 20 mil a Bruno. Ela estranhou a quantia, mas deu força para que Jeff seguisse com os pagamentos, já que o ator explicara que era um investimento na carreira. O dinheiro era parte da herança que recebeu do avô.
Personagens fictícios, boletim de ocorrência e pai de santo
Bruno criou, pelo menos, dois personagens para atrapalhar as investigações da polícia, além de se passar pelo próprio Jeff para amigos do ator. Tudo começou quando, em 1º de fevereiro, Patricia Triacca, veterinária e amiga de Jeff, recebeu a notícia do abandono dos cachorros do ator. Ela, então, entrou em contato com ele perguntando o que estava acontecendo. Naquele momento, quem respondia às mensagens pelo celular de Jeff era Bruno. Fingindo ser o ator, ele disse estar em São Paulo a trabalho e que havia pedido a uma amiga de Jacarepaguá para cuidar dos cães, mas eles acabaram fugindo.
Veja mensagens de WhatsApp trocadas entre Patrícia Triacca e suposto Jeff Machado
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Na conversa, o suposto Jeff deu o telefone de quem seria o “namorado” da amiga de Jacarepaguá. Ele afirmou que Giovani explicaria a situação dos setters para Patrícia. Nesta quarta-feira, a perícia de um áudio enviado a Patrícia revelou que Giovani, suposto namorado de uma amiga do ator, era, na verdade, Bruno. Ele forneceu informações falsas sobre os cachorros do artista, abandonados após seu desaparecimento.
Ainda em janeiro, Bruno foi até uma delegacia registrar o sumiço do ator. Dias depois, o produtor de TV apareceu no terreiro do pai de santo Jorge Augusto Barbosa Pereira, em Santíssimo, também na Zona Oeste. Queria um “trabalho” para ajudar a encontrar Jeff porque estava “angustiado com o sumiço do amigo”. Jorge Augusto foi quem ficou, a pedido de Jeander e Bruno, com os oito setters do ator — Jeff era louco pelos cães e os exibia com orgulho nas redes sociais, usando um perfil exclusivo para as fotos dos animais.
Depois que o corpo de Jeff foi encontrado e Bruno e Jeander se tornaram suspeitos do crime, a dupla tentou, em depoimento à polícia, inserir uma terceira pessoa na cena do crime. Eles alegaram que um homem chamado Marcelo foi o responsável por matar o ator. Segundo relato de Jeander, Marcelo, conhecido como “Ben 10” ou “Pablo”, era matador da milícia da Zona Oeste.
A polícia nunca acreditou nessa versão e considerou, desde o início das investigações, o suposto assassino como um dos personagens fictícios criado pelos suspeitos “em uma tentativa desesperada de excluir suas responsabilidades penais”. Quando foi preso, Jeander confessou que recebeu dinheiro de Bruno para mentir sobre a existência de Marcelo, e culpou o produtor de TV pela morte do ator.
“Cena” com a família da vítima
Em 6 de fevereiro, dois dias após o registro de desaparecimento, a família de Jeff descobriu que as chaves da casa e do carro do ator estavam com Bruno. Eles combinaram de buscar os bens na residência do artista, quando o produtor também iria mostrar o imóvel para eles. Diego Machado, irmão de Jeff, decidiu gravar a visitação.
Logo no início do vídeo, ele sentiu mau cheiro na sala e na cozinha da casa, que ficam no primeiro andar. Na suíte do ator, revirada e bagunçada, ele notou que todas as roupas estavam penduradas em cabides, e que itens de higiene pessoal, como shampoo, condicionador e escova de dentes estavam no banheiro — o que não fazia sentido já que Jeff, a princípio, estava em São Paulo.
As imagens revelam Bruno atordoado e preocupado com o sumiço de Jefferson. Em dado momento, ele leva a mão ao rosto, como se estivesse sofrendo ou emocionado, e anda pelo cômodo falando dos itens que Jeff gostava.
Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo
*O Globo
